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Fabiana Weykamp

22 Setembro 2010 | 16h47

Esta semana começou muito complicada em São Paulo com as fortes pancadas de chuva que tivemos nas tardes de segunda e de terça-feira.

Nós, da Climatempo, erramos a previsão do tempo para estes dois dias. Depois de um fim de semana frio e úmido, falei em meus boletins da manhã na rádio Eldorado que naquela segunda-feira voltaríamos a ter sol, calor e tempo seco. O sol até apareceu um pouco neste dia, mas já no começo da tarde o tempo fechou, vieram as pancadas de chuva e por volta das 14 horas os termômetros marcavam apenas 18 graus na Zona Sul da cidade. Fiquei completamente arrasada!

Na terça-feira retorno ao trabalho e digo que o que aconteceu na segunda-feira não iria se repetir neste dia. Até o começo da tarde tudo ia bem. O sol brilhou forte e a temperatura chegou aos 29 graus. Porém, às 15 horas começo a observar o início da formação das nuvens carregadas que se desenvolveram até provocar a chuva intensa nas Zonas Norte e Leste da capital e uma quantidade absurda de granizo em Guarulhos. Ou seja, tudo foi ainda pior neste dia!

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Foto da cidade de Guarulhos nesta terça-feira tirada por Guilherme Kastner, do Diário de Guarulhos.

Qual a explicação para tantos erros?

A “ferramenta” principal de trabalho para se prever as condições atmosféricas futuras são os “Modelos Numéricos de Previsão do Tempo”. A atmosfera é representada através de equações matemáticas que são resolvidas por supercomputadores. Esses resultados estimam de forma dinâmica o comportamento das variáveis meteorológicas em dias posteriores na forma de “Campos Meteorológicos”. Nós, meteorologistas, interpretamos estes campos (de pressão, vento, temperatura e etc. em diferentes níveis da troposfera) e determinamos finalmente se em “tal” dia teremos sol, calor, frio, chuva e etc.

Além disso, diariamente fazemos o acompanhamento do tempo utilizando outros recursos como as imagens de satélite e as imagens de radar. As imagens de satélite mostram nuvens e através destas podemos identificar os “Sistemas Meteorológicos”, como uma frente fria, por exemplo.  As imagens de radar mostram chuva em suas diferentes intensidades.

Em nossas reuniões diárias para a  previsão do tempo, analisando os modelos numéricos, não identificamos as condições para a chuva nestes dois dias em São Paulo.

Na segunda-feira, houve a formação de muitas áreas de instabilidade sobre o Sul do Brasil. Parte desta instabilidade que estava no Paraná entrou no sul do Estado de São Paulo, se deslocou e atingiu a Região Metropolitana. Na terça-feira a chuva intensa que causou o granizo teve a sua formação sobre a Região Metropolitana.

Para haver a formação das nuvens do tipo Cumulunimbus (Cb), que provocam tempestade, é necessário ter calor e umidade. O calor já era esperado, só não contávamos com a fonte de umidade que veio através da mudança na direção do vento naquele dia, que passou a soprar do mar pra cá. O ar mais quente e leve subiu, resfriou-se e permitiu a condensação da umidade. Dessa forma, pelo processo de convecção, houve a formação da nuvem do tipo Cb que possui um grande desenvolvimento vertical. No topo desta nuvem a temperatura atinge valores de 50 a 70 graus NEGATIVOS. A temperatura negativa forma o gelo, que devido as correntes ascendentes e descentes dentro da nuvem, forma o granizo, que pesa e atinge o solo.

A quantidade de granizo que caiu em Guarulhos foi excepcional e não é comum acontecer durante o inverno. Amanhã já começa a primavera e ao longo desta estação já será mais comum ter calor e alta umidade que favorecem a ocorrência das fortes pancadas de chuva. Porém, a primavera é uma estação de transição entre o inverno tipicamente seco na Região Sudeste para o verão tipicamente chuvoso. Por não ser uma estação tão bem definida a previsão do tempo torna-se um desafio ainda maior.

Depoimentos dos meteorologistas sobre esses erros:

FABIANA WEYKAMP – Ontem o que mais lembrei foi de um filme que vi há alguns anos atrás chamado “O sol de cada manhã” com o ator Nicolas Cage. Neste filme ele é um meteorologista que apresenta o tempo na TV. Ao sair as ruas, as pessoas passam por ele e gritam: “Olha o homem do tempo” e atiram coisas nele do tipo sanduíche, milk shake e etc. Essas cenas horríveis me faziam pensar o quanto os ouvintes da Eldorado deveriam estar bravos comigo diante dos grandes furos da previsão.

CAMILA RAMOS – Quando vi a primeira gota de chuva no vidro do carro eu até tentei limpar sempre pensando: “Não é possível!!!” Quando alguém te conta que pegou chuva você ainda pode pensar que alguém está tentando te enganar, mas eu acabei pegando esta chuva ao vivo e a cores. Para completar a tragédia, eu estava andando pela Celso Garcia, e como se não fosse suficiente estar chovendo granizo, a rua começou a alagar! A primeira sensação foi de negação, depois veio a tristeza e depois que esta passou comecei a apreciar o granizo porque afinal de contas meteorologista não é de ferro.

MARCELO PINHEIRO – Era apenas mais uma tarde ensolarada de final de inverno em São Paulo. De repente os radares começaram a mostrar áreas de chuva se formando na região. Eu e minha companheira Fabi ficamos monitorando. E aí que surgiu um monstro. Ali no centro-leste da capital e virou gente grande. Avançou pela região metropolitana e despejou muito gelo na forma de granizo. De tanto gelo acumulado, a cidade denominada, outrora, como Guarulhos ficou com ares de Barilhoce (cidade argentina famosa pelas nevascas), ou seja, a nova “Guariloche”. A prima vera é sinistra mesmo!

PATRÍCIA MADEIRA – Trabalho há muito tempo na previsão, e a sensação não muda quando as coisas não são exatamente como eu gostaria. Primeiro vem a sensação de incredulidade: será que está acontecendo mesmo? E toca a procurar dados, satélite, radar, metar. Depois vem aquela preocupação com as pessoas. E quem não levou guarda-chuva? Esfriou e as mães não agasalharam seus filhos! Se tiver enchente então, muito pior, dá vontade de sumir, dói a cabeça. Numa situação de granizo como ontem, tirando o encanto de ver um fenômeno meteorológico tão bonito, fica a sensação de “o que foi que eu não enxerguei? Será que não olhei tudo o que devia? Pesquisei instabilidade, modelos, dias anteriores?”. Normalmente chego à conclusão que não, algo ficou pra trás. E, antes tarde do que nunca, procuro entender o que a atmosfera escondeu de mim, já que as explicações são inevitáveis. Poder explicar, aliás, é um privilégio e é necessário, as pessoas têm o direito de saber exatamente porque errei. E a partir daí começa novamente o trabalho de convencimento: escutar a previsão do tempo ainda vale a pena! Estamos sempre aprendendo!

ALEXANDRE NASCIMENTO – Como uma criança que foi para a escola e fez coco na calça. Você cometeu um erro grave, não tem como esconder de ninguém e o que você mais gostaria no seu íntimo era de cavar um buraco e se enterrar. Mas como não dá, vai para casa, troca de roupa e bola pra frente!!!

JOSÉLIA PEGORIM – QUE MERDA! DROGA! ERRAMOS PELO SEGUNDO DIA SEGUIDO!
Quem estava na sala da previsão da Climatempo na tarde de terça-feira me ouviu falando alto estes e outros impropérios. Duvido que algum meteorologista que faz previsão, e que seja minimamente comprometido com o dia a dia da profissão, não tenha se irritado muito com o que aconteceu. Quando acontece um erro assim, a sensação de desconforto é enorme. E para piorar a coisa, teve a granizada em Guarulhos. Acho que para os meteorologistas que fazem previsão é quase unânime que o pior erro é dizer que não vai chover e chove. Tenho muito mais tempo de trabalho na previsão do tempo, e de contato com o público, que meus colegas de equipe, mas mesmo assim, um erro grave como este irrita até hoje. Hoje, não choro mais porque errei, mas já chorei muito. Endureci na lida, mas não esqueço meu primeiro choro meteorológico. Em um domingo, dos idos do começo dos anos 1990, chorei mais que  a chuva que caía e inundou Sampa, porque disse no rádio que a chuva de Mato Grosso do Sul não ia chegar aqui. E naquele domingo chovia, chovia, e não parava, chovia e Sampa foi alagando, alagando. Na época, o Magno me consolou, pois já era mais experiente do que eu. Brincou comigo: “tá vacinada, agora bola pra frente”. Disse várias vezes aos meus ouvintes de rádio: não dá para voltar no tempo e corrigir o erro da previsão. Quando acontece, a gente limpa mesa, zera o cronômetro e continua o dia com a nova realidade. A gente aprende também que é muito importante ser transparente e honesto consigo mesmo e com o público, e não ter vergonha de assumir que errou.


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